Erivelto Fioresi de Sousa
Professor do Curso de Ciências Econômicas do Ifes Campus Cariacica e Pesquisador Principal do Laboratório do Desenvolvimento Capixaba
Quando pensamos em turismo no Espírito Santo, o imaginário coletivo nos transporta imediatamente para as areias de Guarapari, o clima europeu de Domingos Martins ou o agito da orla de Vitória. Dificilmente Cariacica surge como uma opção na lista de desejos de um viajante, sendo historicamente vista apenas como um corredor logístico ou uma força industrial. No entanto, como observadores do desenvolvimento regional no Espírito Santo, propomos um olhar diferente: e se o futuro da economia de Cariacica estiver justamente naquilo que ainda não foi plenamente explorado? Refletir se o turismo no município é um caminho possível ou apenas um sonho distante exige que deixemos de lado o amadorismo e encaremos o setor como uma política de Estado estratégica e urgente.
Já conversamos em outros momentos sobre como o turismo pode ser o novo fôlego para nossa economia diante das mudanças da reforma tributária. Mas, hoje, o convite é para olhar Cariacica por outro ângulo: não apenas como um número no orçamento, mas como um território vivo que pulsa e se reinventa no coração da nossa região metropolitana.
Por muito tempo, o olhar de fora tentou diminuir nossa cidade, rotulando-a como um simples 'quintal' ou um 'apêndice' de Vitória, feito apenas para morar. Retomo aqui as reflexões dos colegas pesquisadores, Professores Igor Vitorino e Marcelo Monteiro. Esse preconceito, que nos chamava de 'lugar do atraso', ignorou as histórias de quem vive aqui. Deixaram de lado o fato de que a modernização da capital só foi possível graças ao suor e à resistência dos trabalhadores do nosso 'Polígono Proletário', gente que, com as próprias mãos, construiu suas casas e sua dignidade nos morros e baixadas.
Entender a Cariacica de hoje é, acima de tudo, reconhecer a humanidade dessas trajetórias. É superar a imagem de uma periferia esquecida para dar lugar à história de uma região que sempre foi um eixo de circulação e, principalmente, de luta. Como nos ensina Paulo Freire, não estamos aqui para apenas nos adaptar ao mundo, mas para transformá-lo como sujeitos da nossa própria história.
Essa transição de olhar revela que a força de Cariacica não reside em uma promessa futura, mas em uma riqueza de seu passado e cultural que sempre esteve lá, aguardando o reconhecimento de sua própria complexidade. O que antes era rotulado como "vazio" ou "periferia" é, na verdade, um território onde a identidade e preserva saberes e paisagens únicos. Para avançar, é preciso encarar o desenvolvimento não como um grande projeto" externo, mas como o resgate desses desejos e memórias que tornam o município um órgão vivo e pulsante no coração do Espírito Santo.
Pensando em turismo, para que isso se torne realidade, Cariacica não precisa inventar atrativos, ela precisa estruturá-los. O município possui uma diversidade territorial invejável, unindo o urbano e o rural em poucos quilômetros, com recursos que Boullón (2002) define como potenciais latentes. Debruçados em pesquisas sobre estes potenciais, mapeamos oportunidades prontas para serem desenvolvidas com responsabilidade e seriedade. O ecoturismo e o turismo de aventura são vocações naturais, em que o Monte Mochuara surge como um ícone de mais de 700 metros de altitude capaz de atrair trilheiros e amantes da natureza. No campo cultural, o Carnaval de Congo de Máscaras de Roda D’Água e a Folia de Reis são manifestações únicas de identidade e ancestralidade que expressam o vínculo entre fé e tradição local. Temos gastronomia de qualidade e um comércio vibrante em Campo Grande e Itacibá que já atrai milhares de pessoas; o que falta é transformar o "recurso" em "produto turístico" vendável e competitivo.
Mas o otimismo não pode cegar a análise daquilo que pode surgir despontar entraves reais que tornam o turismo uma atividade subutilizada no município. Cariacica, foi reconhecida oficialmente como Município Turístico, pelo Ministério do Turismo, classificada na Categoria "C" no Mapa do Turismo Brasileiro, o que denuncia um desempenho intermediário em infraestrutura e governança. Um dos vilões é a insegurança: registros criminais mostram que a criminalidade está fortemente associada aos principais eixos viários, o que afeta diretamente a percepção de risco e afasta o visitante. Além disso, a infraestrutura hoteleira é crítica, disponibilizando poucos meios de hospedagem ativos, o que limita a capacidade de retenção do visitante e o transforma em um excursionista de poucas horas, deixando pouco valor na economia local.
Outro ponto essencial é a fragilidade institucional histórica. Uma análise da Lei Orçamentária Anual (LOA) de Cariacica entre 2001 e 2025 revela que o setor de turismo, muitas vezes agrupado com cultura e lazer, recebeu fatias ínfimas do orçamento, chegando a apenas 0,20% em certos anos. Essa baixa prioridade orçamentária resulta em descontinuidade de ações e na falta de investimentos estruturantes, como sinalização turística interpretativa e qualificação da mão de obra. A ausência de guias de turismo credenciados e de cursos profissionalizantes voltados ao setor reforça que o município ainda não está plenamente preparado para absorver um aumento na demanda sem depender de cidades vizinhas como Vitória e Vila Velha.
A boa notícia é que o cenário está mudando. A criação de uma secretaria específica, a conquista do Selo de Município Turístico e o lançamento do plano "Fortalece Turismo" parece mostrar que o poder público finalmente reconheceu o potencial do setor como vetor de desenvolvimento. O Plano Estratégico de Marketing Turístico do Espírito Santo 2026–2030 e a Rota Estratégica Turismo 2035 já traçam o norte necessário: experiências autênticas, menos massificadas e profundamente conectadas com a identidade local. Para Cariacica, o sucesso dependerá da capacidade de transformar esses planos em ações coordenadas, unindo o trade turístico, o governo e a comunidade anfitriã em torno de uma marca coletiva e duradoura.
Enfim, e a resposta à nossa pergunta inicial, turismo em Cariacica? É possível? Acreditamos que é perfeitamente possível, desde que haja coragem. Coragem para investir em segurança, para atrair a iniciativa privada para o setor hoteleiro e de entretenimento, além de qualificar o capital humano local. O município não pode mais se contentar em ser apenas um lugar de passagem ou um apoio logístico. Cariacica tem alma, história e belezas naturais que merecem ser o destino, e não apenas o caminho. É hora de o desenvolvimento sustentável e a resiliência fiscal caminharem juntos para que o mundo finalmente descubra o que Cariacica tem a oferecer.