Marcelo Monteiro dos Santos
Professor do Curso de Ciências Econômicas do Ifes Campus Cariacica
Li com grande interesse o artigo do professor Igor Vitorino da Silva (2026), publicado pelo LABDES, intitulado Cariacica e o polígono proletário: espaço, trabalho e memória na modernização capitalista capixaba (1940-1960). O historiador circunscreveu o território de Cariacica para observar os elementos que proporcionaram seu crescimento urbano ao longo do século XX. Aquele polígono proletário forjou um espaço, território eivado de contradições modernizantes que, com afeto, Silva reconstitui em suas diversas faces.
O texto me fez lembrar de um outro momento em que ideias de modernização foram postas em marcha a partir de um feixe de políticas públicas que buscavam fazer do Espírito Santo, tomo aqui o conceito emprestado, um polígono de desenvolvimento. Jerônimo de Sousa Monteiro (1870-1933), capixaba de Cachoeiro de Itapemirim, ocupou o Palácio Anchieta entre 1908 e 1912. Durante seu mandato imprimiu um viés desenvolvimentista avant la lettre, buscando reposicionar o Espírito Santo na jovem República do Brasil.
Dentre muitas medidas e políticas implementadas, quero lembrar aqui a criação da Fazenda Modelo Sapucaia, in terras deste município de Cariacica. Aquele Brasil agrário enxergava no desenvolvimento da lavoura o motor para o crescimento econômico. As iniciativas de incentivo a indústria também estiveram no cardápio, mas a identidade econômica do país, e do Espírito Santo, nascia nos campos. O governador havia visitado uma experiência semelhante em Minas Gerais (Conde, 2023), de lá trouxe a ideia de um estabelecimento híbrido que forneceria assistência técnica aos lavradores e, também funcionaria como um aprendizado agrícola, ofertando capacitação profissional aos jovens do campo.
As ideias saíram do papel e a Fazenda Modelo Sapucaia foi inaugurada em 1909. Os jornais noticiaram efusivamente a novidade. A Estrada de Ferro Vitória a Minas até inaugurou uma parada na porta da fazenda para facilitar o acesso. Ao analisarmos as fotografias que ilustram o relatório final do governo de Monteiro (Monteiro, 1912), observamos uma fazenda em pleno funcionamento: áreas produtivas, maquinário agrícola – uma novidade naquele contexto – animais diversos, infraestruturas de processamento, enfim, parece que a ideia frutificara. Houve ali grande investmento público.
E por que me lembro da Sapucaia ao ler o artigo de Silva? Porque falamos aqui de projetos para o desenvolvimento do Espírito Santo. Projetos diferentes, claro. Mas que intencionavam mudar determinada realidade e projetar um futuro. O território de Cariacica já foi lido pela historiografia como o lugar do atraso, do crescimento urbano desordenado, da alta criminalidade nos anos 1980 e 1990. O lugar periférico ideal. Pode ser tudo isso, mas não é apenas isso. Aqui, proponho recorrer ao passado para imaginar um presente que pode ser diferente. Volto ao Espírito Santo de Jerônimo Monteiro, no início do século passado, para imaginar com ele, e com todos nós, que toda realidade política, social e econômica é produto da ação dos indivíduos.
Olho novamente as fotografias da Fazenda Sapucaia e me pergunto que pensaram aqueles agricultores que por ali passaram? Que desejavam os jovens, poucos, que se dispuseram a aprender os ofícios do campo? Não obstante as divagações desse historiador que vos escreve, penso nos projetos de desenvolvimento, e na ausência deles, que fizeram a história econômica capixaba.
Penso aqui nas descontinuidades, no esforço humano empregado em projetos malogrados. Silva (2026) escreve que “é preciso restituir a complexidade das experiências territoriais e sociais concretas, superando tanto a nostalgia quanto o desprezo pelo passado”, concordando e indo além, precisamos escrever a história econômica do Espírito Santo, olhando os sonhos e erros do passado, para projetar o futuro com menos descontinuidades e malogros.
A Fazenda Modelo Sapucaia foi um projeto efêmero. A gestão estadual que sucedeu a Monteiro, navegando crises econômicas cíclicas, fechou o estabelecimento que foi, alguns anos depois, leiloado a iniciativa privada (Santos, 2025). Mas o Espírito Santo prosseguiu sendo um estado que se reconhece agrário, apesar dos esforços industrializantes.
Saltando ao presente, hoje possuímos quatro campi do Instituto Federal do Espírito Santo que possuem identidade agrícola e ofertam cursos em estreito diálogo com os arranjos produtivos locais: Alegre, Itapina (Colatina), Montanha e Santa Teresa. Este último, inclusive, originário de um projeto de investimento em ensino agrícola do governo estadual em 1940. Estas instituições, e tantas outras, como as Escola Família Agrícola espalhadas pelo interior, são apostas no desenvolvimento de uma faceta que permanece fundamental para a economia capixaba: o campo.
Daquela fazenda modelo, passando pelo desenvolvimento de Cariacica até os campi do Ifes do presente, estamos todos a falar de algo muito similar. O desenvolvimento econômico. Que ele não seja um lugar ideal, mas um processo em que políticas públicas sejam perenes, que as parcerias público-privadas sejam a bem do interesse coletivo e os investimentos estatais sejam fruto de pesquisas e orientado pelo bem comum. Por fim, que as pessoas do campo e da cidade sejam igualmente beneficiadas pelo desenvolvimento que tanto buscamos e alcançamos, mas que ainda exige novos avanços.