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Sobre memórias, ferrovias e desenvolvimento: Para onde vamos?

Marcelo Monteiro dos Santos
Professor do Curso de Ciências Econômicas do Ifes Campus Cariacica

O historiador Pierre Nora (1931-2025) elaborou com grande precisão o conceito de “lugar de memória”. Argumentava que a memória pode se depositar como grãos de areia sobre os espaços, preenchendo-os. Alguns lugares são depositários privilegiados desses vestígios do passado: museus, monumentos, narrativas nacionais e datas comemorativas. Se ampliarmos o conceito, além de preencher, a memória pode mobilizar pessoas e ideias.

Quero iniciar tratando de um desses lugares: o antigo Museu Vale, instalado em 1998 na estação ferroviária Pedro Nolasco, no bairro de Argolas, em Vila Velha. Observem quantas camadas de memória esse espaço reunia: a ferrovia, a estação, o museu e seus objetos, o bairro. Qual visitante, morador ou turista, ao longo de mais de vinte anos de funcionamento, não se encantou com a grande maquete da Estrada de Ferro Vitória a Minas, ou se interessou pelos pesados objetos de ferro — trilhos, rodas e ferramentas — expostos no local? Aquele velho relógio de estação ou os uniformes dos agentes. A grande atração era a locomotiva a vapor de fabricação americana (Filadélfia, 1945), estacionada ali como uma máquina do tempo, saudosa para os mais velhos e impressionante para os jovens. Tudo ali parecia organizado como se a operação ferroviária tivesse sido decomposta em seus elementos. Funcionava também um importante centro de memória que, segundo o site do museu, “[...] possui cerca de 24 mil itens catalogados, incluindo livros de registros, publicações, plantas geográficas, mapas, fotografias, objetos, filmes, além de vasta documentação relacionada à história da Estrada de Ferro Vitória a Minas e da própria Vale”.1 Havia ainda um restaurante e café instalados em um belo vagão de passageiros.

Embora não fosse oficialmente classificado como museu ferroviário, já que abrigava exposições de arte e outras atividades, sua identidade estava profundamente ligada à memória ferroviária.

Esse espaço, contudo, foi fechado em 2022. Inicialmente, sem explicações claras. A imprensa questionou sua reabertura: no ano seguinte? Após a pandemia de Covid-19? Nunca mais. Oficialmente, alegou-se que a manutenção do equipamento cultural em uma área de intensa atividade portuária colocaria em risco os visitantes. Em 2023, anunciou-se a criação de um novo museu em Vitória, com previsão de abertura ainda neste ano, em um dos galpões do porto. Mas e a antiga estação Pedro Nolasco, as ferrovias e a memória ferroviária?

Também foi noticiado que o imóvel da estação foi transferida para a Prefeitura Municipal de Vila Velha. A locomotiva encontra-se hoje em novo local, em frente à estação Pedro Nolasco, em Cariacica. O Centro de Memória foi deslocado para outro endereço, mas permanece fechado a pesquisadores. O museu, antes integrado, fragmentou-se. Não discutirei aqui o que poderá ocupar seu espaço, nem se a Prefeitura o transformará em centro cultural. Mas cabe perguntar: por que um equipamento cultural tão singular se desfez? Sem protestos. Sem diálogo com a comunidade.

É comum afirmar que as ferrovias foram fator decisivo de crescimento econômico desde o século XIX nas regiões onde se instalaram. No Espírito Santo, a pioneira Estrada de Ferro Caravelas iniciou suas atividades no final da década de 1880. A malha ferroviária local foi inicialmente limitada, ampliando-se de forma mais significativa no período republicano. Primeiro com a ligação entre Vitória e Cachoeiro do Itapemirim pela Estrada de Ferro Sul do Espírito Santo, depois com a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) estabeleceu a rota que conectava Minas Gerais ao Porto de Vitória. Ao longo do século XX, a Estrada de Ferro Leopoldina, que incorporou diversas outras linhas no país, conectou Vitória ao Rio de Janeiro. Destaque para sua estação em estilo art déco, recentemente restaurada e administrada pela Prefeitura de Vila Velha.

A atividade ferroviária no Espírito Santo não se restringe ao passado. Em 2024, a EFVM transportou cerca de 850 mil passageiros, sendo uma das poucas rotas desse tipo ainda em operação no Brasil. Segundo dados recentes, a ferrovia escoa mais de 60 tipos de cargas, incluindo produtos agrícolas, fertilizantes, celulose, combustíveis, materiais siderúrgicos, madeira e carvão mineral, tanto para exportação quanto para abastecimento do mercado interno.2 Além da Vale, a empresa VLI também atua no transporte de cargas no trecho.

A esse cenário somam-se os projetos de expansão da rede ferroviária para o sul do estado e a conexão da Região Metropolitana de Vitória ao Rio de Janeiro, por meio da EF-118. As ferrovias continuam despertando memórias afetivas, especialmente entre os mais velhos e trabalhadores do setor. No entanto, a experiência recente demonstra que projetos de futuro se fortalecem quando dialogam com o passado — seja para compreender processos, respeitar trajetórias ou valorizar o diálogo com as comunidades impactadas.

Retomando o ponto inicial, as memórias dizem mais sobre o presente do que sobre o passado. Como comunidade, escolhemos o que preservar, lembrar ou esquecer. Escolhas permeadas por disputas entre diferentes grupos. Diante disso, o que fazer com o patrimônio ferroviário capixaba? Não apenas com estações e locomotivas isoladas, mas com um conjunto construído ao longo de mais de um século, com grande investimento e trabalho, e que desempenha papel relevante na economia do estado? Muitas questões foram levantadas ao longo deste texto. Não pretendo respondê-las integralmente. Mas, para concluir, retorno a Pierre Nora: os lugares de memória são políticos, pois carregam projetos, ideias e vontades coletivas.

Assim, convido à reflexão: ao observar a antiga estação, os trechos de linha férrea, as placas de “pare, olhe, escute” cobertas de limo ou a locomotiva estacionada, perceba que tudo isso diz respeito ao presente. As ferrovias simbolizaram o progresso no passado. Que o patrimônio ferroviário, como múltiplos lugares de memória, possa, ao ser valorizado, também apontar caminhos para o futuro.


1MUSEU VALE. Instituto Cultural Vale. Disponível em: https://institutoculturalvale.org/espacos-culturais-e-vale-musica/museu-vale/. Acesso em: 28 mar. 2026.

2ESTRADA DE FERRO inteligente e mais sustentável. A Gazeta, Vitória, 8 jan. 2026. Disponível em: https://www.agazeta.com.br/anuario/estrada-de-ferro-inteligente-e-mais-sustentavel-0126. Acesso em: 28 mar. 2026.

ESTRADA DE FERRO inteligente e mais sustentável. A Gazeta, Vitória, 8 jan. 2026.
MUSEU VALE retorna em novo local: reabertura no armazém do Porto de Vitória. Vports, 19 dez. 2023.
MUSEU VALE. Instituto Cultural Vale.
NORA, Pierre; AUN KHOURY, Tradução: Yara. Entre memória e História. A problemática dos lugares. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, [S. l.], v. 10, 2012.
Disponível em: <https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/12101>.
Acesso em: 28/03/2026.

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