Já não somos tão jovens

Jhonatan Telles
Doutorando e mestre em Geografia (UFES). Membro da União Internacional para o Estudo Científico da População, da Associação Latino-Americana de População e da Associação Brasileira de Estudos Populacionais

Parafraseando Legião Urbana, já não “somos tão jovens” enquanto nação, e a maturidade que o tempo nos impõe exige reflexão sobre nossos caminhos.

Nas periferias das grandes cidades brasileiras, envelhecem hoje aquelas pessoas que migraram do interior décadas atrás em busca de oportunidades. Chegaram jovens, cheios de expectativa. Permanecem agora, entre os 60 e os 80 anos, em territórios que foram planejados, quando foram, para uma população ativa e produtiva. Não para quem precisa de mobilidade urbana acessível, acesso a serviços de saúde e espaços de convivência.

Essa imagem não é exceção. É tendência.

No próximo 11 de julho, comemora-se o Dia Mundial da População, data que remete ao momento em que o planeta alcançou a marca de 5 bilhões de habitantes, in 1987. Quase quatro décadas depois, somos cerca de 8,3 bilhões de pessoas. O ritmo de crescimento, no entanto, desacelerou: projeções da ONU indicam que o pico populacional será atingido por volta de 2080, na casa dos 10,3 bilhões, seguido de declínio.

Essas dinâmicas são heterogêneas. Enquanto países como Nigéria, Paquistão e República Democrática do Congo seguem crescendo e devem figurar entre os mais populosos do mundo nas próximas décadas, outros já registram ritmos mais lentos de crescimento há algum tempo, Japão, Polônia e Rússia são exemplos consolidados. O Brasil caminha nessa direção: segundo o IBGE, o país deve atingir o ápice em seu estoque populacional em 2042, com 220,4 milhões de habitantes, e então começar a decrescer. Já hoje, nossa taxa de fecundidade está abaixo do nível de reposição. Se ainda crescemos, é porque ainda temos uma proporção importante de adultos jovens em idade de ter filhos, uma inércia demográfica. Mas essa reserva está se esgotando.

O futuro é desafiador. Os modelos econômicos que moldaram como o mundo pensa crescimento, dos modelos neoclássicos de Solow ao de crescimento endógeno de Lucas, foram construídos sobre a premissa do crescimento populacional contínuo. Em termos simples: a ideia de que sempre haveria mais gente produzindo, consumindo e pagando impostos estava embutida nas equações. O mundo mudou. Os modelos, ainda não.

A queda na fecundidade combinada ao aumento da expectativa de vida redesenha a estrutura etária dos países: a base da pirâmide, crianças e jovens, se estreita, enquanto o topo, os idosos, se alarga. Esse fenômeno coloca duas questões centrais que o Brasil ainda trata de forma insuficiente.


Estamos preparando o país para uma sociedade que envelhece?

Não somos mais o "país das crianças". A proporção de brasileiros com mais de 60 anos cresce de forma consistente, enquanto o número de jovens recua. Esse processo não é apenas estatístico, ele se expressa no espaço urbano, nos serviços públicos, nas relações familiares e no mercado de trabalho.

A pergunta que precisamos fazer com urgência é: nossas cidades estão preparadas para acolher essa população? Em países com trajetória de envelhecimento mais longa, como Argentina e Espanha, os idosos participam ativamente da vida cultural e social, integrados ao cotidiano das cidades. No Brasil, predomina ainda uma visão do idoso como encargo, alguém a ser cuidado, e não como sujeito pleno da vida pública.

O debate sobre creches e escolas é legítimo e necessário. Mas onde estão as discussões sobre centros de convivência, espaços de atividade física adaptada, transporte acessível e políticas que promovam um envelhecimento ativo e não solitário? Em saúde pública, sabe-se que prevenir é mais barato do que tratar. Entre idosos, quedas estão entre as principais causas de morbidade e mortalidade, e um envelhecimento ativo pode retardar significativamente a ocorrência desses eventos.

Há ainda uma dimensão de gênero que merece atenção. Há milhões de brasileiras que acordam cedo para levar o filho à escola e terminam o dia administrando a medicação do pai idoso, presas entre duas camadas de responsabilidade, sem reconhecimento e sem apoio institucional. São elas que sustentam, invisíveis, a rede de cuidado que o Estado ainda não estruturou. Em sociedades futuras, em que muitos não terão filhos, ou em que os filhos estarão geograficamente dispersos, essa rede informal tende a se fragilizar ainda mais. É preciso que o Estado e a sociedade civil construam alternativas concretas e adaptadas às distintas realidades brasileiras.

Se todos vamos envelhecer, precisamos nos perguntar: como e onde queremos fazê-lo? Essa não é uma pergunta abstrata. É uma decisão coletiva que deve orientar políticas públicas, projetos urbanos e investimentos de longo prazo.


Cada vida jovem perdida tem um peso ainda maior num país que envelhece

Em um país com base demográfica em contração, a perda de vidas jovens deixa de ser apenas uma tragédia individual, torna-se uma sangria coletiva de consequências duradouras.

Mortes por acidentes de trânsito, homicídios e suicídios concentram-se desproporcionalmente na população jovem. No caso dos homicídios, o perfil é ainda mais específico: jovens negros, de baixa renda, moradores de territórios vulneráveis. A demógrafa Elza Berquó já havia destacado o crescimento preocupante das mortes por suicídio entre adolescentes, uma tendência que os dados mais recentes confirmam.

Vidas não se reduzem a números, e é importante dizer isso antes de qualquer cálculo. Mas dimensionar economicamente essas perdas ajuda a tornar visível o que muitas vezes permanece abstrato. Um cálculo de padaria, baseado no PIB per capita atual e numa vida economicamente ativa de cerca de 45 anos (dos 20 aos 65), sugere que cada jovem que morre precocemente representa uma perda estimada de aproximadamente R$ 2,5 milhões em produção ao longo da vida. Multiplicado pelo número de mortes evitáveis anuais, o resultado é uma perda de bilhões de reais em potencial de produtividade futura, um custo invisível que raramente entra nos cálculos de quem questiona o preço das políticas públicas.

Quando se argumenta que investimentos em educação, mobilidade urbana ou inclusão social "custam caro", é preciso lembrar que o verdadeiro custo está na omissão. Em um país que envelhece rapidamente, com cada vez menos jovens, cada criança e cada adolescente representa um ativo insubstituível, humano antes de econômico, mas econômico também.


O que está em jogo

O modelo econômico atual não pode mais contar com o crescimento populacional como variável garantida. Diante disso, o caminho passa, necessariamente, pelo investimento em capital humano e produtividade.

Temos uma janela de oportunidade, e ela não vai ficar aberta para sempre. Enquanto a base demográfica ainda não colapsou completamente, podemos e devemos investir mais em cada criança que está na escola hoje. Não por generosidade: por inteligência coletiva. No ensino superior, o desafio é outro: não basta emitir diplomas. É preciso garantir inserção laboral de qualidade e ampliar o diálogo entre universidade e setor produtivo, transformando a academia em motor real de inovação e produtividade.

Estamos envelhecendo antes de enriquecer, esse é o diagnóstico que sintetiza o dilema brasileiro. Mas a história não é determinada apenas por tendências demográficas. Ela é feita de escolhas. E a escolha que precisamos fazer, como sociedade, é reconhecer que já não somos um país jovem, somos um país maduro, que precisa pensar seu futuro com a seriedade que essa maturidade exige.

Isso significa integrar os idosos à vida pública, tornar nossas cidades acessíveis e acolhedoras, e proteger com determinação cada criança e cada jovem que ainda compõem nossa base demográfica. Não como estatística. Como pessoas. Isso deveria ser o suficiente para mudar nossas prioridades, mas, se não for, os números acima também servem.

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