Quem sai, quem fica: os desafios demográficos de Cariacica

Jhonatan Telles
Mestrando em Geografia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Pesquisa população e desenvolvimento, com foco socioespacial.

Como morador de Cariacica e estudante de Geografia na UFES, participei de um grupo de pesquisa dedicado aos estudos populacionais. Foi ali que uma pergunta começou a me intrigar: por que Cariacica, ao lado da capital Vitória, apresenta as menores taxas de crescimento populacional da Região Metropolitana da Grande Vitória?

No caso de Vitória, por ser capital, a própria literatura aponta um movimento conhecido: a desconcentração populacional. É como uma força centrífuga, que empurra moradores do centro para os municípios ao redor (Dota, 2022; Mendonça, 2012). Esse processo está ligado ao mercado de terras e ao setor imobiliário, que influenciam a mobilidade residencial — ainda mais em uma ilha com pouca disponibilidade de terrenos.

Já Cariacica, por sua vez, foi historicamente vista como um município periférico. Quando apresentei essa questão a alguns professores e estudiosos da área, a resposta mais comum era: provavelmente, trata-se de uma cidade-dormitório. E, de fato, Cariacica — assim como Vila Velha — foi por muito tempo caracterizada dessa forma.

Na década de 1960, Cariacica foi o município que mais cresceu na Região Metropolitana da Grande Vitória e chegou a ter a maior população em 1991. No entanto, a partir desse período, passou a registrar as menores taxas de crescimento populacional, ao lado da capital Vitória.

Entretanto, é a partir dos anos 2000 que Cariacica começa a atrair empresas e a reorganizar seu território de modo a mudar seu perfil de atratividade econômica. Se, em 2010, era — ao lado de Viana — um dos municípios com maior proporção de moradores que se deslocavam para trabalhar em outras cidades, a expectativa agora, com a liberação dos microdados do Censo de 2022, é que esse volume tenha diminuído.

Diante desse cenário, não se pode mais encarar Cariacica apenas como uma cidade-dormitório. Então, o que explica suas baixas taxas de crescimento populacional? E, mais importante: quais são as implicações disso para o município?

São essas algumas das perguntas que apresento — e busco responder — em minha dissertação, a ser defendida no dia 20 de fevereiro. Como pesquisador, sempre fui movido pelo interesse nos estudos populacionais; por isso, minhas perguntas partem de uma lente demográfica. Mas as respostas não estão apenas na Demografia ou na Geografia: é no diálogo com outras áreas do conhecimento que elas ganham profundidade.

Em resposta à primeira pergunta, posso dizer que foi durante minha temporada em Barcelona, na convivência com o professor Juan Antonio Módenes, que pude compreender o conceito de housing careers (Clark; Dieleman, 1996; Módenes, 2008). Foi ali também que percebi a importância do ciclo de vida e da habitação como respostas às mudanças que atravessam nossa trajetória — sair da casa dos pais, formar uma família, mudar de emprego, envelhecer. Essa perspectiva ampliou meu olhar para a questão habitacional, que até então estava mais concentrado na mobilidade, especialmente na mobilidade residencial.

Nesse campo da habitação e do mercado imobiliário, estudos da Arquitetura e da Geografia da UFES já haviam se debruçado sobre um ponto central para compreender a realidade de Cariacica: a dinâmica do seu setor imobiliário (Barbosa, 2013; Pinheiro; Miranda, 2023; Zanotelli; Ferreira, 2024). O município nunca conseguiu se inserir de forma expansiva no mercado formal e, quando houve avanço, ele se concentrou majoritariamente na produção voltada às faixas de menor renda.

Ainda assim, pouco se discutiu sobre os perfis de mobilidade — quem sai, quem entra — e sobre os efeitos desses movimentos na estrutura demográfica do município. E é justamente aí que surge uma questão central: o que acontece com aqueles que ascendem socialmente?

É nesse ponto que as trajetórias habitacionais e a mobilidade residencial se cruzam. Em busca de melhores condições de moradia e das atratividades construídas ao longo do tempo, filhos e netos da primeira geração de moradores de Cariacica acabam encontrando em outros municípios — como Vila Velha, Vitória e Serra — as oportunidades habitacionais que não encontram em sua cidade de origem.

E, do outro lado, para quem Cariacica continua sendo atrativa?

Se Viana, impulsionada por um maior dinamismo econômico, consolidou-se como polo atrativo para o mercado de lotes com infraestrutura básica adequada, e a Serra expandiu grandes condomínios com amenidades urbanas e maior proximidade dos centros, em Cariacica a oferta imobiliária permaneceu mais concentrada nas franjas do município. Esses empreendimentos, em geral, tornou-se opção sobretudo para as populações de menor renda.

É aí que reside a questão central. Se sabemos quem sai e quem permanece, podemos compreender os impactos demográficos que se desdobram em diferentes dinâmicas no interior do município.

A saída da população de maior renda afeta não apenas a produção do espaço urbano, mas também a base econômica e fiscal de Cariacica. Além disso, há reflexos diretos na estrutura etária: observa-se um processo de envelhecimento nas áreas centrais, justamente aquelas ocupadas pela primeira geração que se estabeleceu no município.

Tem-se, assim, um cenário posto para Cariacica. Nos últimos anos, é inegável o volume de obras e investimentos realizados no município, especialmente por parte do Governo do Estado.

Mas as perguntas permanecem: isso será suficiente? Basta tornar a cidade mais dinâmica economicamente para reverter a tendência de baixo crescimento populacional? O desafio, ao que tudo indica, é mais profundo do que apenas dinamizar a economia.

Essas são algumas das respostas que desenvolvo em minha dissertação. Fica aqui o convite para que todos participem da defesa, no dia 20 de fevereiro, no IFES – campus Cariacica.

Olhar para Cariacica sob as lentes demográfica e geográfica não é apenas um exercício acadêmico. É um passo necessário para compreender as transformações que já estão em curso e para decidir, conscientemente, que cidade queremos ser. O futuro do município não é dado — ele é construído. E só pode ser construído a partir do entendimento profundo de sua própria realidade.

  • BARBOSA, L. B. A produção do espaço urbano e as áreas de transição rural-urbana: o caso do município de Cariacica. Dissertação (Mestrado em Geografia), Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2013.
    Disponível em: .
    Acesso em: .
  • CLARK, W.A.V.; DIELEMAN, F.M. Households and housing: choice and outcomes in the housing market. New Jersey: Center for Urban Policy Research, 1996.
    Disponível em: .
    Acesso em: .
  • DOTA, E. M. Trajetórias de mobilidade residencial na periferia metropolitana da RM de Vitória: estratégias e conjunturas. Terra Livre, v. 2, n. 59, p. 337–368, 2022.
    Disponível em: .
    Acesso em: .
  • MENDONÇA, J. G. Mobilidade residencial e dinâmica das transformações socioespaciais na metrópole belo-horizontina. Cadernos Metrópole, 09, 39–79, 2012.
    Disponível em: .
    Acesso em: .
  • MÓDENES, J. A. Movilidad espacial, habitantes y lugares: retos conceptuales y metodológicos para la geodemografía. Estudios Geográficos, v. 69, n. 264, p. 157-178, 2008.
    Disponível em: .
    Acesso em: .
  • ZANOTELLI, C. L.; FERREIRA, F. C. O espaço urbano e a renda da terra. GeoTextos, [S. l.], v. 10, n. 1, 2014.
    Disponível em: .
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