Acordo Mercosul x União Européia

Érika Leal
Professora do Curso de Ciências Econômicas do Ifes Campus Cariacica e Coordenadora do Observatório e do Laboratório do Desenvolvimento Capixaba

Ainda estamos sob o efeito da euforia nacional da assinatura do Acordo Mercosul e União Europeia (UE), assinado no Paraguai no dia 17 de janeiro. De fato, após mais de 20 anos de negociações, o Acordo representa um avanço nas ações multilaterais do comércio entre dois grandes blocos do comércio internacional.

A magnitude do acordo explica o amplo interesse que ele desperta. Não apenas economistas, mas profissionais de diversas áreas como diplomatas, geógrafos, gestores públicos e analistas políticos, além da sociedade em geral, têm se sentido motivados a opinar e refletir sobre seus possíveis efeitos. Em um contexto cada vez mais conectado, o debate extrapola os meios técnicos e alcança o espaço público.

Como todo movimento internacional ou nacional tem um impacto na economia do Espírito Santo, é natural que a primeira questão que passou em minha mente foi: E o Espírito Santo? como esse Acordo pode repercutir sobre nossa economia?

Confesso que desde então, tenho lido diversas opiniões, refletido sobre a nossa estrutura produtiva, conversando com profissionais diversos para realmente ter uma nota preliminar das possíveis implicações do Acordo para os capixabas, cabendo deixar bem claro que as regras do jogo ainda não estão plenamente estabelecidas e todos nós ainda precisamos de estudos robustos sobre o tema.

Inicialmente, por meio de informações oficiais Governo Federal, é possível observar que Mercosul e UE, juntos, reúnem cerca de 718 milhões de pessoas e Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente US$ 22,4 trilhões de dólares.

Embora a grande mídia dê ênfase ao capítulo sobre o Comércio de Bens, que contempla um amplo compromisso de liberalização tarifária em setores industriais e agrícolas, respeitando as especificidades de cada mercado, há inúmeros outros capítulos que tratam de parcerias em termos de proteção intelectual, medidas fitossanitárias e ambientais, defesa da concorrência, micro, pequenas e médias empresas, compras governamentais entre outros que serão objeto de análises por especialistas em muitos anos vindouros (BRASIL, 2026).

Para o Brasil, o Acordo possui valor estratégico em diversos sentidos. Primeiramente, em termos de contexto geopolítico global, cumpre destacar que o Acordo Mercosul e União Europeia foi assinado num momento em que a principal potência econômica mundial, os Estados Unidos, assume uma posição unilateral, de exacerbado protecionismo econômico, totalmente na contramão do multilateralismo, característica do Acordo.

Nesse sentido, o Brasil, ao liderar a busca pelo Acordo e principal economia do Mercosul, sinaliza que não ficará refém das decisões de Washington acerca das estratégias comerciais conduzidas de forma deliberada, impondo tarifas e restringindo os mercados aos produtos brasileiros. É preciso ter acesso privilegiado a diversos mercados.

A UE é o segundo principal parceiro comercial do Brasil, com corrente de comércio de bens, em 2025, de aproximadamente US$ 100 bilhões. O Acordo deverá reforçar a diversificação das parcerias comerciais do Brasil, além de fomentar a modernização do parque industrial brasileiro com a integração às cadeias produtivas do bloco europeu (BRASIL, 2026).

Estudos prévios conduzidos pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostraram que em praticamente todas as variáveis analisadas os ganhos para o Brasil seriam superiores aos demais países do Mercosul e aos países da União Europeia. No período entre 2024 e 2040, o acordo estimularia um crescimento de 0,46% no PIB brasileiro, o equivalente a US$ 9,3 bilhões a preços constantes de 2023, em relação ao cenário de referência. Em termos relativos, o Brasil obteria ganhos maiores que os da União Europeia (aumento de 0,06% no PIB) e dos demais países do Mercosul (alta de 0,20%).

O Ipea explicou que "o benefício que o Brasil teria com o acordo é maior que o dos parceiros do Mercosul porque a economia brasileira é mais diversificada e teria ganhos mais extensos em termos setoriais". Ademais, no que se refere à União Europeia, "o ganho do Brasil é maior em termos de percentual do PIB. A economia da UE é muito maior que a brasileira e, normalmente, quando um parceiro grande faz acordo com um menor, os ganhos que ele tem são proporcionalmente menores. Então, é natural que o Mercosul e, em especial, o Brasil, tenham benefícios proporcionalmente maiores com o acordo".

As avaliações de uma política pública devem se ter cautela quanto aos riscos. Esse mesmo estudo do Ipea traz preocupações com possíveis desaceleração de alguns setores industriais, pois os produtos europeus serão mais competitivos aqui. A entrada de produtos industriais europeus mais competitivos pode desestimular a produção nacional e afetar empregos no Sul e Sudeste, onde a atividade industrial é mais forte.

O professor do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), João Romero, em entrevista ao Economia Uol (2026), observou que a maior demanda externa tende a encarecer alimentos no mercado nacional. Corremos o risco de investir milhares de recursos em subsídios ao agronegócio para que os europeus tenham acesso aos alimentos produzidos no Brasil mais baratos.

Em análises do Economista Paulo Morceiro, compartilhadas comigo, ele adverte que diversas mudanças foram realizadas no acordo ao longo do tempo e ainda carecemos de uma avaliação detalhada para entender os riscos, as oportunidades e os desafios para as regiões. De todo modo, é melhor ter o Acordo por pelo menos três motivos em sua concepção.

O primeiro é que o principal problema é a China. Primeiramente, a China tem uma escala produtiva gigantesca em relação à brasileira em qualquer segmento industrial. Hoje uma tarifa de 35% não é mais capaz de brecar as importações chinesas. Em menos de 10 anos metade das nossas importações serão apenas oriundas da China. "Vou usar uma metáfora: o Brasil é um time da terceira divisão industrial. A UE é da segunda divisão. E a China é da primeira divisão. É mais fácil o Brasil competir com um time da segunda divisão que da primeira".

Em segundo lugar, a gente já perdeu muito de densidade industrial, sobretudo em alta e média-alta tecnologia. O que sobrou de baixa e média baixa é intensiva em commodities. Então, não tem muito mais para perder. Além disso, há muitas multinacionais nesses segmentos mais tecnológicos que mais fazem montagem no país que outra coisa.

O terceiro é que com o acordo, o Brasil baixa tarifa e a UE também baixa tarifa para produto brasileiro. Pode ser bom em alguns segmentos e se houver política industrial poderemos desenvolver outros, pois é um mercado enorme.

A partir disso tudo, e o Espírito Santo? Em 2025, segundo informações do Panorama do Comércio UE – Brasil, desenvolvido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a UE foi destino de 13,5% das exportações do estado. Dos U$ 10,4 bilhões exportados, U$ 1,4 foram direcionados aos países europeus com destaque para: Países Baixos Holanda (US$ 311,8 mi, 22,2%); Itália (US$ 215,8 mi, 15,3%); Bélgica (US$ 205,5 mi, 14,6%); Alemanha (US$ 188,9 mi, 13,4%) e França (US$ 138,3 mi, 9,8%), (MDIC, 2026).

Mais de 1/3 das exportações do Espírito Santo para a UE é representado pelo café. Em 2025 foi quase meio bilhão de dólares exportado e a consolidação do Acordo significa eliminação de tarifas tornando o café capixaba mais competitivo no cenário europeu.

Ademais, cumpre ressaltar que nosso estado possui um Plano de Desenvolvimento com horizonte temporal de 10 anos - ES 500 Anos-, que na Missão 1 tem como objetivo promover a diversificação e a complexidade da estrutura produtiva capixaba. Nessa missão, há iniciativas e diretrizes que poderão ser favorecidas com o novo Acordo, como a iniciativa 1.2 - Legislação: intensificar, junto ao Governo Federal, medidas de desburocratização nas operações aduaneiras e integração de sistemas operacionais e promover simplificação regulatória e a transparência para aumentar a segurança jurídica e reduzir custos de compliance.

Além da Iniciativa 2.2- Internacionalização, com as seguintes Diretrizes: ampliar a presença global do estado por meio de certificações, internacionais, parcerias estratégicas e participação em feiras e eventos internacionais; facilitar e qualificar as exportações por meio de capacitação empresarial e gestão de negócios, alinhando-as a padrões técnicos e normas internacionais; promover a capacitação e a qualificação de empresas e capital humano no processo de internacionalização, no atendimento a normas, padrões, certificações e acordos, (ESPÍRITO SANTO, 2025).

Por outro lado, dado o novo cenário de mercados ainda mais liberalizados, os gestores públicos deverão realizar uma força tarefa para não perder competitividade naquilo que já somos referência e avançar na diversificação e na complexidade.

Dessa forma, o Acordo Mercosul x União Europeia deve ser compreendido não apenas como um instrumento de liberalização comercial, mas como uma oportunidade estratégica que exige planejamento, políticas complementares e atenção aos impactos regionais, de modo a potencializar seus benefícios e mitigar seus riscos para o Brasil e para o Espírito Santo.

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