Marcelo Monteiro dos Santos
Professor do Curso de Ciências Econômicas do Ifes Campus Cariacica
O Vale do Canaã é uma região localizada entre os municípios de Santa Teresa e Colatina. Caracteriza-se pelas pequenas propriedades que foram ocupadas inicialmente por famílias de imigrantes europeus que chegaram aos milhares na segunda metade do século XIX ao Espírito Santo. Na literatura, podemos conhecer esse vale de terras quentes a partir dos romances de Graça Aranha, o Canaan (1902) e Virginia Tamanini, Karina (1964). Vencidas muitas dificuldades na instalação das pequenas propriedades – terrenos acidentados, montagem da propriedade etc, o Vale do Canaã se constituiu como uma grande colcha de pequenas unidades produtivas de característica familiar, provando que, historicamente, distribuir terras a quem nelas possa se instalar e produzir é positivo. Assim era também a Fazenda da família Pagani, na localidade de São João de Petrópolis, desapropriada pelo governo estadual para a instalação da Escola Prática de Agricultura do Espírito Santo, ou de Santa Teresa, ao gosto de quem nos lê.
Celso Furtado (1975; 1983) argumentou que a modernização agrícola era etapa fundamental para alavancar o desenvolvimento regional e nacional. Aumentar a produção de alimentos qualificando a lavoura através da pequena propriedade elevaria renda e permitiria, aliando outras políticas, um círculo virtuoso de crescimento que poderia levar ao desenvolvimento econômico. O ensino profissional agrícola no Brasil, desde o início da República, fora organizado tendo mais ou menos o mesmo objetivo: modernizar a agricultura como fator de desenvolvimento individual e coletivo. Essa equação passava pela elevação da instrução dos trabalhadores da lavoura. Esse tema será recorrente no Brasil do século XX. Não fora diferente em terras capixabas.
O decreto de criação da Escola Prática de Agricultura (EPA) em 1940, no governo do interventor João Punaro Bley – o país vivia a ditadura do Estado Novo sob Getúlio Vargas – traz todos os elementos da crença na capacitação dos trabalhadores rurais como etapa, ou como meta, para a adoção de práticas que elevassem a produtividade das propriedades rurais no estado. Os cursos de Prático Agrícola e Administrador de Fazenda, com duração de um ano, traziam um currículo mais prático que teórico nas áreas de agricultura e zootecnia. Noções gerais de algumas disciplinas básicas (português, matemática dentre outras) e higiene. O analfabetismo, que atingia 54,2% da população espírito-santense com 10 anos ou mais em 1940 (IBGE, 2007), também seria atacado com aulas noturnas para esses alunos. A história dessa instituição aponta para um esforço político e investimento financeiro realizado pelo Executivo estadual. O orçamento para a manutenção da escola era elevado. A partir de 1948, atendendo a modificações da nova Lei Orgânica do Ensino Agrícola, a EPA passou para a gestão do Ministério da Agricultura.
Podemos medir o quanto aquele objetivo, elevação da produção no campo a partir da qualificação profissional da população do meio rural, foi alcançado? Teríamos que construir instrumentos que avaliassem dados os mais variados de modo qualitativo e quantitativo. Afinal, toda política pública precisa de indicadores e avaliação de sua eficácia ao longo do tempo. Não tendo espaço nesse artigo para tal, proponho uma avaliação analisando a trajetória dessa octogenária instituição que completa no dia 6 de setembro 86 anos.
Aquela escola prática passou por diversas nomenclaturas acompanhando as modificações normativas relativas à Educação Profissional Agrícola e chegou até os nossos dias na qualidade de campus do Instituto Federal do Espírito Santo. Cumpriu destino similar ao de outras escolas da mesma natureza Brasil a fora – Barbacena, Rio Pomba em Minas Gerais, Pinheiral no Rio de Janeiro ou Alegre e Itapina (Colatina), essas duas também no Espírito Santo. Desse modo, podemos avaliar que a manutenção desta instituição de ensino agrícola, nos aponta positivamente em relação à formação profissional ofertada ao longo do tempo.
Destaco que o ensino agrícola era indissociável das atividades de extensão rural na sua origem. Por décadas a escola realizou um evento anual chamado Semana do Lavrador, que reunia centenas de homens e mulheres de todo o estado. Somavam-se a esse evento exposições, reuniões mensais com lavradores da região, o pequeno jornal O Cultivador – noticioso e vulgarizador das boas práticas para o campo, e a rádio A Voz da Lavoura, no ar a partir de 1956. O tempo passou, vieram cursos técnicos, projetos desenvolvidos com recursos internacionais, expansão das vagas, acesso das meninas aos cursos técnicos, antes restrito ao curso de extensão em Economia Rural Doméstica.
Nas fotografias que ilustram o artigo vemos os edifícios principais inaugurados em 1941. Modernos, adequados à atividade fim daquela escola, com internato para os estudantes que vinham de longe. A pequena propriedade dos Pagani foi progressivamente ampliada com aquisição dos terrenos vizinhos, perfazendo hoje seiscentos hectares de área produtiva, construída e reserva legal. Na sequência das edificações veem as pessoas: razão de ser de qualquer instituição de ensino. Alunos-lavradores ou lavradores-alunos? Assistir a uma aula prática de campo, operar um trator, se alfabetizar. Nessa métrica que propomos, nossa percepção é de que sua função foi cumprida. Mas e agora?
Uma década após o início da Escola Prática, a atividade agrícola e pecuária representava 50,3% da renda interna na economia capixaba (Ribeiro, 2016). Na segunda metade do século XX sua importância decresceu de modo constante, tenho ganhado cada vez mais relevância a atividade industrial e os serviços. Em 2023 esse percentual havia baixado a menos de 5% (IJSN, 2025). Não significa dizer que a agricultura não é mais importante na economia capixaba. Longe disso. Mas traçar um quadro em que as instituições que ofertam cursos voltados ao arranjo produtivo agropecuário possam compreender as dinâmicas da economia do campo.
Uma instituição de ensino que completa 86 anos em pleno funcionamento tem muito a comemorar. Na esteira dessas celebrações, contudo, cabe perguntar: continuamos formando lavradores para a modernização do campo? Nossas ações de extensão rural mantêm o diálogo com as comunidades próximas e distantes do campus Santa Teresa? Aniversários institucionais são momentos de celebração, mas também constituem oportunidades importantes de reflexão e avaliação. Assim, podemos reafirmar nossa conexão com a História da instituição, sua missão e os objetivos que orientarão sua atuação nas próximas décadas.